Psicologia - DE FREUD A JUNG: DA RELIGIÃO À ESPIRITUALIDADE.

Contribuição de Mary Lee Santos



Sustento que o sentimento religioso cósmico é o mais forte e o mais nobre incitamento à pesquisa científica. Albert Einstein

Pretendo apresentar alguns pensamentos de Freud e Jung sobre a questão da religião e da espiritualidade, numa tentativa de apenas abrir possibilidades para futuras reflexões mais profundas sobre o tema.


Vale lembrar inicialmente que os conceitos, espiritualidade e religião, se diferenciam.


A religião é um sistema institucionalizado de crenças, dogmas, rituais e orações, caracterizado por um estilo próprio e coletivo de expressar o sentimento religioso, de tender a uma demanda de sentido, de um sentido que toca de imediato as pessoas.


A angústia é fator desencadeante da busca religiosa.


Atualmente tem aumentado consideravelmente o número de pessoas que estão buscando alguma religião, talvez um dos fatores que contribui para isso, possa ser o fato das pessoas se sentirem perdidas, num contexto social de desamparo (Teoria do Caos).


O que resulta no mal-estar contemporâneo que mostra que os valores atuais, os bens materiais, as lógicas produtivistas que sustentam as práticas consumistas e outros, não estão sendo satisfatórios.


O que pode explicar, em parte, a busca humana por um novo paradigma civilizatório e também pela espiritualidade através das religiões que oferecem uma forma do sujeito resgatar a autoestima, o sentimento de pertencimento e um sentido para a vida.


Segundo Dalai-Lama, citado por Leonardo Boff 1 a “espiritualidade é aquilo que produz no ser humano uma mudança interior”.

Penso que são inúmeros os caminhos para se realizar mudanças capazes de criar um novo sentido na vida de uma pessoa.


A espiritualidade é um desses caminhos. E a mesma é hoje cada vez mais aceita como uma importante dimensão humana.


A angústia é fator desencadeante da busca, não apenas religiosa, mas de vários outros caminhos. O próprio Freud foi um atento observador da cultura em sua época, o fez interessado que era em compreender os sofrimentos humanos e os diversos aspectos da humanidade dos sujeitos.


Ele buscou uma parceria com Jung e o pretendia como um continuador de sua obra; mas depois de um período de interlocução, que teve início em 1907 e que foi além da ruptura em 1913, não encontrou nele o colaborador que buscava.


Mesmo assim, apesar das divergências de pensamentos, durante o período que durou esse encontro, eles produziram muito conhecimento, dentre eles algumas ideias sobre o tema da religião.


Podemos citar pelo menos três bons exemplos do conhecimento produzido devido a essa parceria, primeiro o fato de que foi Jung que chamou a atenção de Freud para o caso Schreber, segundo foi a partir das colocações de Jung que Freud deu um novo rumo ao desenvolvimento da metapsicologia e terceiro em Totem e Tabu inicialmente escrito por Freud como um ensaio sobre a religião, o tema era eminentemente do interesse de Jung.


Mas Freud escreveu, dentre outros, mais dois textos importantes sobre a cultura e a religião.


O mal-estar na civilização (1930 [1929]) onde ele apresenta um exame da cultura em geral e O Futuro de uma Ilusão (1927) onde faz um exame geral da religião.


No entanto, ele se entusiasma com o estudo sobre a religião, por estar claramente interessado em provar, que no nível mais profundo, estaria o complexo de Édipo e a sexualidade.


Assim, o ensaio sobre a religião era apenas uma forma de produzir novas teorizações e aplicações da psicanálise. Em seu texto Totem e Tabu (1913[1912]), ele faz uma aproximação de sua concepção baseada no complexo de Édipo com a ideia da filogenética de Jung.


E também abordou a questão da pré-história da espécie, quando falou do assassinato do pai, da identificação com o mesmo e da colocação da lei.


E da pré-história individual, quando explicitou a constituição de um sujeito a partir do desamparo e do narcisismo.


Assim sendo, Freud concebeu o desamparo, como base das religiões, antes mesmo de fazer a referida junção citada acima. Pois, havia concluído que o fundamento das religiões consistia no desamparo infantil do ser humano, sendo que o desamparo infantil continuaria na vida adulta e a falta do pai infantil levaria a duas falsas produções: forjar um Deus justo para si e forjar uma natureza bondosa.


Anteriormente no texto Atos obsessivos e práticas religiosas (1907), Freud já havia colocado a religião como uma neurose obsessiva. Vinte anos depois com o texto, O futuro de uma Ilusão (1927), ele diz pretender defender a Psicanálise dos padres. O título ele pegou emprestado de uma peça teatral de Romain Rolland.


Neste texto afirmou ser a religião resultado dos desejos humanos, uma ilusão. E mais, afirmou também serem todas as religiões uma ilusão. Explicou que as ideias religiosas, que realizam os anseios humanos, cumprem a função de proteger o homem da onipotência da natureza, sem ter que passar por limitações e privações impostas pela cultura. Mas como isso seria algo impossível, só poderia mesmo tratar-se de uma ilusão.


Freud esclareceu que ilusão não significava algo falso; mas algo que se caracterizava por ser produto dos desejos humanos. E que os homens por terem necessidade da religião, iludiam-se.


Contudo, Freud colocou que o analista não precisava se preocupar com o fato da religião ser comparável a uma neurose infantil, pois assim como as crianças, os homens também poderiam superar essa fase neurótica.


A essas ideias de Freud, Pfister respondeu em seu artigo “A ilusão de um futuro”, em 1928, dizendo que eram críticas que confundiam religião com fé, por isso essas é que seria uma ilusão.


Rolland também aproveitou o texto O futuro para defender a ideia de um “sentimento oceânico”, uma forma primária da necessidade do religioso no ser humano. E também questionou o fato de Freud não ter abordado essa questão da origem do “sentimento religioso”, que chamou também de “sensação religiosa”, “sensação de eterno”.


Assim, no texto O mal-estar na civilização (1930 [1929]), na primeira parte, Freud discute a validade dessa posição de Rolland sobre o “sentimento oceânico”. O que Freud diz é que isso se trata de um restabelecimento do narcisismo. Ele recusa a ideia de Rolland de que sensação religiosa possa constituir a essência da religiosidade.

Afirma não passar de uma reformulação da necessidade de proteção pelo pai e uma repetição do sentimento de plenitude que o bebê experimenta antes da separação psicológica da mãe, o sentimento de plenitude que é característico do eu primário (eu-prazer).


No mesmo texto, segunda parte, Freud recapitula teses desenvolvidas em seu outro texto O futuro e também aborda que a vida humana se caracteriza pelo fato de que os objetivos do princípio do prazer (busca do gozo máximo) e a evitação da dor não podem ser atingidos, em razão da própria “ordem do universo”. Dessa forma, o homem estaria mais apto a viver a infelicidade. Infelicidade está que estaria sendo imposta pelo sofrimento do corpo, pela hostilidade do mundo externo e pela insatisfação que lhe proporcionam as relações com os outros.


O princípio do prazer submete-se ao princípio da realidade, ao confrontar-se com o mundo externo. O homem renuncia a felicidade para a qual não foi feito e procura meios de atenuar ou eliminar o sofrimento.


Três meios são essenciais: a neurose, a intoxicação e a psicose, cujas formas serão próprias de cada sujeito. Freud fala ainda da hostilidade, da agressividade e crueldade do homem demonstrada pela história e pela atualidade.


Essa fala é confirmada por Hobbes que havia dito, o homem é o lobo do homem. Freud vai defender que o fato dos homens serem hostis é inerente ao ser humano. E que isso não adianta negar, é acolher e transformar. É entender que a cultura quer que você acredite que pode ter tudo; mas a tese de Freud é: Não se pode ter tudo.


No entanto, como a cultura poderá desenvolver meios para controlar a destrutividade? Freud falou do supereu, que como controlador da agressividade gera sentimentos de culpa, inconscientes, vividos como um malestar.


Mas a pergunta permanece. A sociedade civilizada poderá dominar a pulsão destrutiva? Essa pergunta Freud não respondeu, deixou em aberto.


No entanto, vivemos no momento a angústia contemporânea: A capacidade tecnológica de exterminar uns com os outros.


Existem hoje 25 formas de se destruir a biosfera. Sem dúvida, uma grande capacidade destrutiva. Podemos não ter a resposta para essa questão; mas podemos pensar algumas possibilidades tais como: É necessário aceitar a castração, aceitar a si mesmo, ao outro e a vida como falta. É necessário desenvolver uma capacidade de lidar com o lado luz e o lado sombra (Jung) de tudo e de todos.


Se o sujeito não aceita o lado obscuro, se isola, fica deprimido e insatisfeito. E isso é uma pretensão, não aceitar-se faltoso. Diferentemente dessa posição, a angústia pode ser matriz do crescimento psicológico, como fonte de criatividade e produção. Certamente foi uma das valiosas contribuições da Psicanálise denunciar os mecanismos defensivos presentes nas adesões às religiões.


O grande mestre sabia que as dificuldades humanas não eram de fácil enfrentamento. Assim, a emancipação do homem precisava ser radical, de maneira que todos os mecanismos que subjugavam o sujeito deveriam mesmo ser denunciados e transcendidos.


Freud foi sem dúvida um pensador genial, justamente por isso, deixou para os que viriam depois pensar para além do ele já havia pensado.


A cultura contemporânea apresenta aos analistas hodiernos a possibilidade de pensarem sobre a função atual da religião e da espiritualidade. Uma vez que o mistério habita o humano e a religião criativa implica em inclusão e não em exclusão, sendo a experiência espiritual, uma vivência psíquica.


Freud e Jung apresentaram uma diferença básica na forma de pensar a religião. Para Freud a religião era um processo patológico. Representava uma neurose coletiva, onde a figura do grande pai era projetada para Deus.


E para Jung era um processo criativo, uma possibilidade de acolher as contradições da realidade, da integração dos opostos, do equilíbrio luz e sombras, sendo uma realidade do homem as transformações internas e externas.


Ou seja, uma experiência religiosa não neurótica, não apenas como mecanismo de defesa coletivo de sublimação, recalque da sexualidade ou tentativa infantil de superação da angústia.


Jung teve o mérito de mostrar que a espiritualidade, como uma dimensão do humano, não era monopólio das religiões. Ele foi o pensador moderno que mais se interessou, na nossa cultura, pela busca de uma compreensão da dimensão espiritual.

A obra dele foi psicológica e cientifica e mesmo assim ele foi um interessado em compreender o místico, que é o que tem haver com o mistério. E mistério habita a interioridade do ser humano.


Para Jung, o resgate da religião do sujeito, era uma evolução no caminho da “cura” psíquica. Pois, considerava o retorno do indivíduo para sua tradição religiosa estruturante. O que poderia causar um bem ao espírito e à psique do neurótico afastado, desenraizado de sua fé. Segundo ele, a estrutura da religião poderia manter o consciente mais seguro em relação a forças destrutivas do inconsciente.


Dessa forma, penso ser este um tema importante para nós analistas na atualidade, pois nosso interesse pelo paciente não precisa se restringir apenas a dimensão psicológica, mas pode ir além, ampliando-se para outras dimensões: física, social, cultural, espiritual, ambiental...


Pois mesmo que o foco do trabalho analítico seja o psíquico, a visão deve ser ampliada suficientemente para perceber o sujeito em sua totalidade, evitando assim uma visão reducionista deste e de seus vários aspectos. Além da importância de compreender as mudanças sociais e suas consequências, para o entendimento do sujeito histórico.



Como nós analistas podemos pensar hoje o papel da religião na cultura?
Como pensar a importância da espiritualidade como experiência psíquica?
Quais as consequências na clínica?


Penso que essas reflexões podem contribuir para uma nova sociedade que desenvolva uma cultura da sabedoria (superação do narcisismo defensivo), que visa à pulsão de vida, que acolha a realidade que é contraditória, que não precise tanto contrapor (competição), que consiga compor (cooperação), onde o homem estaria mais apto a viver a felicidade, não a dada pela lógica do consumo, mas a construída pelo sujeito libidinal, pela realização e pela individuação.

E que acredite no potencial humano capaz de domar a destrutividade e de aprender a solidariedade, a ética, a integração e o respeito às diferenças, para que a vida evolua, à medida que as pessoas se tornem libertas de serem vítimas da cultura e também de si mesmas.


Afinal, tudo isso são conquistas.


REFERÊNCIAS:


BOFF, Leonardo. Espiritualidade: Um caminho de transformação. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.

JORDÃO, Alexandre Abranches. Narcisismo: Do ressentimento à certeza de si. Curitiba: Juruá, 2011.

FREUD, Sigmund (1827-1931). O Futuro de uma Ilusão, o Mal-Estar na Civilização e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago Ed. ESB. 1977. Vol. XXI.

FREUD, Sigmund (1913-1914). Totem e Tabu. Rio de Janeiro: Imago Ed. ESB. 1977. Vol. XIII.

FREUD, Sigmund (1906-1908). “Gradiva” de Jensen e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago Ed. ESB. 1977. Vol. IX

FERNANDES, Roberto Rosas. Narcisismo e Espiritualidade: O desenvolvimento da consciência pela elaboração simbólica. São Paulo: Escuta, 2012.

ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. ESPIRITUALIDE e Religião. Palestrante Leonardo Boff. Rio de Janeiro: DVD .


1 Boff, Leonardo. Espiritualidade: Um caminho de transformação. Rio de janeiro: Sextante, 2006.p.13.



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